sábado, 15 de janeiro de 2011

exequibilidade

lembro-me do dia em que você chegou aqui em casa. Um rapazinho desconfiado, salvo do vizinho, que não sabia cuidar de amigos. Não demorou muito e fez do nosso o seu espaço. Corria de um cômodo a outro, com a língua de fora. Você parecia um sorriso. E o seu focinho gelado, quando tocava em mim, logo era acompanhado de uma lambida, um beijo de gratidão. Nas horas de pique-esconde, eu me escondia atrás das portas, enquanto você... um, dois, três... não, você não contava. Eram as suas patas largas se aproximando e... bu! Lá ia em disparada, depois do susto, bater que tinha me encontrado. Respiração ofegante, língua de fora, cheiro de xampu, todo garboso.

Um dia gritaram que você andava com o focinho sujo de terra, que estava colhendo todas as rosas do jardim etc. E eu passei a não ver mais a sua cara de sorriso. Porque no espaço que te sobrou, entre o tapete e os seus dois pratos, não cabia mesmo gratidão. Bradei que aquilo era absurdo, gritei pela sua liberdade de ir e vir. Em vão. Mandaram-me calar, que eu não era dona do meu nariz. Não ser dona do nariz deve ser tão chato quanto não ter mais terra no focinho, quanto  não colher mais flores.

Hoje eu vim te dizer que eu também perdi a minha liberdade de ir e vir. Que também me sinto com uma coleira no pescoço. E eu sei o quanto é triste desacostumar-se. É mais triste quando você se esquece da coleira e parte em disparada, como quem quer chegar a um costume antigo e... paf! aquilo quase te rasga a garganta, te rasga o sorriso. Aquilo te deixa sem graça. Eu também não caminho mais pela casa como antes. E nas horas de pique-esconde é dentro de mim que eu me escondo. Ando cheia de portas. Mas não há mais ninguém para contar. Um, dois, três... são os ponteiros do relógio. É o som do meu silêncio. As flores que colhíamos, guardo-as ainda comigo. Pétalas são lembranças de momentos que perderam a cor.

E agora tenho eu também um pequeno espaço, onde mal cabe o meu nariz, que, aliás, nem é meu. E entre meus tapetes e meus pratos, não cabe mesmo a minha identidade. E resta-me qualquer sensação, qualquer sentimento... Restam-me ponteiros sem horas e nomes quaisquer. A grandeza virou qualquer coisa. Pode chamá-la do que quiser. Um dia desses, ouvi um nome bem interessante: exequibilidade. Não sabia o que era isso. Hoje eu sei. E sei até o seu antônimo. Colher flores, por exemplo, é inexequível.
::

4 comentários:

  1. Devo admitir. Isso é muito bom!

    ResponderExcluir
  2. eu sei de quem é essa história, eu sei! =) e é tão igual à sua história, é tão atual! lindo lindo lindo o texto! um beijo!

    ResponderExcluir
  3. você escreve tão bem, tão... lindamente. Seus textos são como você, encantadores, originais.

    ResponderExcluir