segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

da inutilidade do amor

há mulheres que possuem uma dose sobrehumana de amor próprio, de autossuficiência. Aquelas que se amam o bastante e se divertem idem consigo, a ponto de não sentirem falta de algum par, coisa qualquer que lhes complete. Porque elas são a própria completude. Bastam-se.

Há mulheres que vão a lojas de lingeries pensando somente em si. Escolhem a mais bonita, mesmo que seja a mais cara. Porque são para elas mesmas. E estas mesmas mulheres também visitam boas adegas e escolhem o mais encorpado vinho para tomarem solitariamente... tomando-se.

Elas chegam em casa, levam o vinho à geladeira, dedilham o melhor disco, um lounge, um jazz, um blues, e põem-no para inspirar-lhe o banho. Ao percorrer o caminho do quarto, elas respiram fundo, inalando o ar fresco, seguro e reconfortante da independência. Cada peça de roupa é retirada delicadamente, ficando espalhadas pelo chão. E é no banho que elas cuidam de cada poro, um cosmético para cada parte, preparam-se para si. Perfumam-se.

A tesoura corta a etiqueta da calcinha nova. Elas gostam daquele barulho do aço desferindo um valor que pouco lhe importa, quando o que querem é apenas agradar. A si. E a imagem no espelho confirma o conjunto belo e conforme. A imagem no espelho aponta um sorriso satisfeito de canto. O vestido que vestem, sedutoramente preto, marcadamente provocante aos seios e em toda sua extensão, recai delineando todos os contornos existentes.

Essas mulheres maquiam-se sutilmente, cientes de sua natural beleza, penteiam-se delicadamente, observando fios, nuca e cada detalhe que dispensa demais olhares e elogios. Bastam-se. Nos dedos, esmaltes e anéis finamente escolhidos. Brincos, singelos malabaristas, fazem cena em suas orelhas. Esmeram-se.

Elas caminham até a varanda, onde se sentam. Pernas cruzadas, taça de cristal marcando 1/3, em ideal temperatura, cabelos que a brisa beija e balança. Pensam nas Amélias e as renegam.

Essas mulheres são qualquer coisa de inexistência e idealização. Vivem no universo onírico das mulheres de carne e osso, das pequenas Helenas. Estas que se vestem para si. Mas não apenas. Perfumam-se para si. Mas não apenas. Compram lingeries e garrafas de vinho, mas nunca pensando em estarem só, apenas. Debalde. Descobrem-se solitariamente acompanhadas, por perceberem que não há sinonímia entre companhia e cumplicidade. E que este engano foi apenas uma epifania infantil, consequência de brincadeiras de boneca, formando casaizinhos, quando apenas uma mente pensava por duas. Descobrem-se acompanhadamente sós, por perceberem que não há mais quem seja capaz de notar as suas verdadeiras cores. Nem o preto do novo vestido. Nem o tinto vinho, sem sintonia. Tampouco o branco invisível das lágrimas, que há tempos são derramadas. E partem do cansaço da carne. Da descrença da alma. Da inutilidade do amor.
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