eu tenho um coração, sabe? Um coração vermelho. Vermelho translúcido. Que nem aquelas pedrinhas de gelo feitas em cubas de vários formatos, com ki-suco de morango. Igualzinho. Ele ficava guardado dentro de um bocapio, misturado a outras bolsas. Um dia pendurei o bocapio no ombro e fui à feira. E meu coração foi junto. Entre frutas e verduras, ia se ajeitando. No caminho de volta pra casa, uma moça veio em minha direção e pediu: "Dona, dá esse tomate pra mim.". Eu, confusa: "Tomate?". "É, esse aí no canto, vermelhão. 'Tá' é 'brilhano'! É pra eu fazer malabares aí no sinal.". "Mala...hã?". "Malabares! É umas 'brincadeira' de jogar os 'tomate' pra cima. Tirar uns 'trocado'.". "Desculpa, não é tomate. Não posso lhe dar.". "É, sim, dá pra mim!". Olhei-a mais uma vez e segui em frente. Ela ficou lá atrás. Ainda me olhando. Talvez pensando nas peripécias que poderia fazer com o meu... tomate. Eu, atônita, segui imaginando o que aconteceria se o meu coração, sendo arrebatado pra cima (!), se espatifasse no chão, na frente de todos aqueles carros. Cheguei em casa correndo e, afobada, joguei tudo na pia da cozinha. Lavei, com cuidado, frutas e verduras. Busquei uma faca e um prato raso e grande. E ali mesmo comecei a compor uma salada. Primeiro a alface. Em seguida, a rúcula, a cebola, o pimentão. Algumas azeitonas e uva passas. Por último, o meu coração em fatias. E, como num rito canibal, comi o meu coração. Depois de um tempo, ele me pareceu muito bom. Não por ter sido acompanhado de molhos e temperos refinados. Mas por tê-lo comido com as sementes, todas elas. Hoje brinco com ele. Lanço-o pra cima. E se ele cai, aqui mesmo fica. Porque criou raízes dentro de mim.
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