sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 20 de abril de 2015

con fides

a confiança é uma penosa escolha.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

"cobra que não anda não engole sapo..."

terça-feira, 6 de maio de 2014

carta ao velho basílio


seu Basílio,

O senhor me deu uma mãe e escolheu meu nome. Além disso, me deu caramelos. Sentado na sua poltrona forrada pelo seu silêncio, vi a sua mão se meter num saco de papel marrom e me estender doces, durante alguns anos. Anos suficientes para que eu não esquecesse o seu rosto. Da sua voz não lembro. Também não sei se o som que sai do meu sopro é o mesmo que saía do seu. Mas guardo o seu instrumento na esperança de que um dia o senhor ainda toque pra mim. Ou comigo. Ou que me escreva uns poemas, como me contam que escrevia. Eu também rabisco, meu velho. Queria poder te mostrar os meus escritos. Mas ocorre que sou dona de palavras inúteis.
Hoje lhe escrevo essa carta porque daí de cima o senhor entende o roteiro das nuvens. Então, hoje lhe escrevo pra dizer que guardo também a sua caneta e o seu carimbo com os seus três pontos de respeito. Quando eu estiver dormindo, venha buscá-los. E me escreva uma resposta: me ensine como seguir.

Sua neta
(há 23 anos sem caramelos)

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

fito

a fita no dedo é pra lembrar de esquecer.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

dona zica

uma tarde com cartola na cabeça.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

erasmo

ele ficava lá, entre tantos outros vinis. Era o meu preferido. E eu não conhecia uma música sequer. Não o escutava. Nunca o fiz. Aquele era o meu disco proibido. Quando me sabia sozinha, logo corria para a estante. Dedilhava um a um até encontrá-lo. Não era meu interesse saber o que ele tocava. Era da capa que eu gostava. Aquela quentura...

Naquele quadrado de fundo branco tinha um homem e tinha também uma mulher de cabelos lisos, que eram curtos e pretos. A blusa descida no ombro. E no rosto, um olhar baixo, um sorriso de canto. Seus dedos eram finos. Eu gostava de observar o modo como ela segurava o próprio seio. Não me pergunte sobre o homem. Dele pouco sei: ele ficava de costas, mamando no seio dela.

Depois de alguns anos, não sei mais onde aquele disco está (já não há mais vinis para dedilhar). Mas sei que continua sendo o meu preferido. Hoje entendo o sorriso daquela mulher. E também aquela quentura. Um dia farei uma foto com o olhar baixo, o sorriso de canto, dedilharei meu seio e serei eu a capa do disco do Erasmo Carlos.

menor


o que há é um papel em branco. Como brancas estão também as minhas pernas, os meus seios, o meu sexo. Mas não esperava o teu a minha vã expectativa. Nem teu corpo, tua língua ou vagos movimentos. É um piano ao fundo que inutilmente preenche agora cada poro por onde teus dedos não deslizaram. E abaixa o meu olhar que renega cada detalhe que eu poderia ser incapaz de notar. Abre meus ouvidos para as incompreensíveis palavras que não foram ditas. E o que fica é esse quente desassossego. E o que fica são essas notas que fazem de ti partitura de uma vontade menor.

chove, maria!


maria ria. E pensava que isso justificava o seu nome e os seus dentes grandes.
Casou-se com João das Dores. Com quem aprendeu a chorar.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

tinta amarela

a primeira tentativa foi um pé de manjericão. Ia crescendo bonito. Os olhos dela fitos nele. Ela nunca soube se foi olhado, mas secaram-se todas as folhas e também o fino caule. E morreu. Depois de um tempo, chegou em casa com um pé de hortelã miúdo. Não afeito ao sol forte da tarde, insistente na varanda, morreu. Cabisbaixa, fez mais uma experiência: uma kalanchoe com flores cor de rosa. Forte. Quase neon. Passou a floração, as flores secaram e caíram. As folhas, no entanto, resistiram mais duas estações, fazendo feliz o sorriso dela. Então, deparou-se com insetos minúsculos na terra. Na garantia do extermínio, exagerou no inseticida. A conclusão de sua fatídica inaptidão tomou-lhe a cabeça. E recusou-se a mais sofrer com tantas perdas. 
Certo dia, um toque de campainha levou-a, distraída, à porta. À sua espera, uma poinsettia vermelha. Linda. De súbito, esqueceu-se das antigas dores e levou, presente e presenteador, ao quintal. Escolheram o melhor lugar e prometeu cuidá-la bem. Lembrou-se do hortelã miúdo e abrigou-a da luz. Em poucos dias, a cor não era mais a mesma nem nasciam brotos. Pensou que completaria um mês, mas o vermelho enfeiou-se e se esvaiu. 
Envergonhada da promessa que a ele fizera, comprou sementes de girassol. E também tinta amarela. Pensou no pé de manjericão, no calor da varanda e na kalanchoe. Também no vermelho e nos brotos que não chegou a ver. Em sua última tentativa, plantou as sementes. E, temendo os nublados dias, pintou, na parede mais próxima, um grande sol.